quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O Jogador

Está finalmente cumprido o meu desejo de ler um livro de maior extensão de um autor russo. Bem, mais ou menos, já que embora seja maior do que um simples conto, é pequeno enquanto livro.

E é daqueles livros cuja história que tem por trás é quase tão interessante como o enredo do livro. Segundo aquilo que diz na própria contracapa, para além de ser baseado em acontecimentos reais da vida do escritor, foi um livro escrito para cumprir um prazo. Dostoievsky teve mesmo que suspender a escrita da sua obra maior "Crime e Castigo", para ditar este livro a uma estenógrafa (que acabou por se casar com ele).

Se estiverem neste momento a pensar "hum, se é assim, deve ser uma bela porcaria, escrito à pressa, e tal, só para que o editor não o chateasse...", tal como eu pensei, desenganem-se!

"O Jogador" é um livro com bastante mérito próprio! Não tem as extensas descrições de que tanta gente se queixa, nos livros de autores russos, e tem bastante diálogo, a maior parte muito interessante, embora de vez em quando lá apareça algum pedaço de conversa do mais puro aborrecimento...

Mas bem, a história não é muito complicada. Alexis Ivanovitch, apaixonado por Paulina, e que trabalha como preceptor dos filhos de um general, descobre o mundo do jogo. Fica viciado, ganha, perde, ganha, perde, como qualquer pessoa que jogue, desafia as probabilidades, arrisca, joga pelo seguro... Enfim, todo um desfiar de acções e decisões extremamente típicas do jogador habitual.

Como que para agitar a história, o general, patrão de Alexis, tem dívidas até ao pescoço, e uma certa personagem muito especial aparece de repente, de forma completamente inesperada, e fica, tal como Alexis, viciada na roleta. E perde, e ganha, e perde, e ganha... A mesma coisa. Mas de notar que esta personagem, que não vou dizer quem é (spoiler alert!), é muito provavelmente a personagem mais interessante do livro, de tão intensa que é.

Todo o livro tem um tom que oscila entre o trágico e o cómico, misturando os dois, e alternando livremente, e acaba por ser a reflexão perfeita da vida de um jogador, que ora ganha, e se sente nos píncaros; ora perde, e vai completamente abaixo... até conseguir arranjar mais dinheiro, para voltar a jogar, é claro.

Resumindo, um livro muito interessante, que me obriga a fazer a promessa de agarrar em mais qualquer coisa deste autor, num futuro não muito distante.

6 comentários:

Manuel Cardoso disse...

É um excelente livro que tem uma história curiosa: Dostoievski, como sempre, estava sem dinheiro e afundado em dívidas de jogo. Tinha o Crime e Castigo quase pronto mas, como era um perfeccionista, não havia maneira de o acabar. Então,desesperado, decidiu escrevr um livro à pressa, para publicar imediatamente e convencer o editor a adiantar-lhe algum dinheiro.
Assim fez: em 2 ou 3 dias escreveu este livro que, feito à pressa, se revelou uma autêntica pérola da literatura universal.
No entanto, o meu preferido dele é Os Irmãos Karamazov: na minha opinião um dos melhores livros de sempre.

Rui Bastos disse...

Pouco ouvir falar d'"Os Irmãos Karamazov", mas estou a ver que tenho que ir pesquisar ;)

tonsdeazul disse...

Eu sou fã de Dostoievski! Muito embora também goste muito de Tolstoi e Gógol.
Foi com "O Jogador" que iniciei a minha descoberta ao autor.
Este ano do autor li "Crime e Castigo", que podes ler a minha opinião aqui: http://tonsdeazul.blogspot.com/2010/10/estou-acima-do-comum-dos-mortais.html, e "O Duplo" que também é excepcional.
No próximo ano espero ler o que o Manuel refere, pois já o tenho faz tempo à espera. ;)

Rui Bastos disse...

Também tenho que ler esses, e procurar por Gógol ;)

Custódia C.C. disse...

Lemos há pouco tempo na minha Comunidade de Leitores e proporcionou-nos uma bela sessão. Não tivesse Dostoievsky os problemas que tinha com o jogo, não teríamos nós o prazer de ler este livro :)

tonsdeazul disse...

De Gógol lê "O Nariz" ou "O Retrato" são pequenas obras que acredito que vais gostar! ;) Os que tenho são da editora Assírio & Alvim.