segunda-feira, 28 de junho de 2010

Nós


Surreal de uma ponta à outra, "Nós" é um das primeiras distopias, e que veio a inspirar Orwell e Huxley, na altura de escrevem, respectivamente, "1984" e "Admirável Mundo Novo".

Principais ideias presentes: a liberdade é algo mau, que deve ser suprimido; a individualidade é algo ridículo; racionalidade acima de tudo. Logo a partir destas 3 ideias, acho que já dá para terem uma noção do livro. Imaginem que estão a ler algo em que as personagens negam constantemente os direitos humanos mais básicos, como a liberdade e a privacidade.

Imaginem que viviam num mundo praticamente todo construído de vidro, separado da Natureza por um enorme Muro, onde não há segredos nem livre-arbítrio. Um mundo onde as pessoas (já não designadas por nomes, mas por números!) aceitam tudo isso, na maior das calmas.

É perturbador, digo-vos já... A narrativa em si está escrita na primeira pessoa, por D-503, o construtor da Integral, uma nave espacial com o objectivo de levar a sabedoria do Estado Único a outros planetas. Acompanhei, com alguma dificuldade, os devaneios dele, e posso dizer, com toda a certeza, que o mundo retratado em Nós é um mundo estranho.

D-503, como toda a gente, abdica da liberdade, recusa a privacidade, e teme a fantasia, a imaginação. E ao mesmo tempo, anseia pela liberdade, desespera por privacidade, e fantasia, sem limites. É interessante ver a evolução desta personagem, de roda dentada perfeitamente oleada no mecanismo que é o Estado Único, a completa incógnita, a algo mais...

Quem já leu "1984" e/ou "Admirável Mundo Novo", não podem perder este livro! Quem não leu nenhum desses dois... Bem leiam este na mesma, e leiam esses depois!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

After Dark - Os Passageiros da Noite

Por uma noite, Murakami leva-nos com ele através de uma Tóquio sombria, onírica, hipnótica. Um deslumbrante romance perpassado de uma singular atmosfera poética, na fronteira entre a realidade e o universo fantasmático, onde cada pormenor, olhado retrospectivamente, faz sentido. Num bar, Mari encontra-se mergulhada num livro, enquanto bebe o seu chá e fuma cigarro atrás de cigarro. Às tantas, entra em cena um músico que a reconhece. Ao mesmo tempo, encerrada num quarto, Eri, a irmã de Mari, dorme com os punhos cerrados, sem saber que está a ser observada por alguém. Em torno das duas irmãs desfilam personagens insólitas: uma prostituta chinesa vítima de agressão, a gerente de um hotel do amor, um técnico informático, uma empregada de limpeza em fuga. Sucedem-se acontecimentos bizarros: um aparelho de televisão que, de um momento para o outro, começa bruscamente a funcionar, um espelho que conserva os reflexos. Em Tóquio, durante as horas de uma noite, vai desenrolar-se um estranho drama...

Foi este pequeno resumo que me despertou a curiosidade para Haruki Murakami, do qual já tinha ouvido falar bastante. As críticas eram fenomenais, e eu não podia simplesmente deixar escapar este génio da literatura japonesa e internacional.
Devo dizer que não me arrependi nem um segundo enquanto me deliciava com a beleza psicadélica de After Dark, que tal como a própria história, se lê como se estivéssemos nós próprios a viver uma noite de insónias.

Neste romance, tanto as situações como as personagens simplesmente fluem, como se fossem completamente indispensáveis ao destino de todo o resto da cidade de Tóquio. Subitamente, o autor faz de nós próprios, leitores, parte da história, caracterizando-nos como "observadores neutros" que acabam por se juntar a todas as outras criaturas misteriosas que se escondem nas sombras da cidade, observando o seu ciclo.

Filosófico, sinistro e hipnotisante, esta obra de Murakami arrisca-se a ser uma das melhores histórias de literatura contemporânea que já me passou pelas mãos.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

England's Dreaming

Uma leitura muito pessoal. Tão pessoal que quase por certo não trará grande interesse aos leitores deste blog. Mas ainda assim, trata-se de um livro, e como tal, merece a minha crítica.

Trata-se pois, de um exímio trabalho jornalístico de Jon Savage, que nesta obra - que inclui nada mais do que inúmeras entrevistas - conseguiu reunir a informação necessária para esculpir o retrato de uma época, que sem dúvida alguma mudou mentalidades: o movimento punk no final dos anos 70.

Através das palavras de vários testemunhos da época e do movimento - incluindo músicos, artistas, políticos e intelectuais - é nos dado a conhecer de uma admirável perspectiva o que de facto instaurou aquela onda de revolta contra o sistema, e modo profundamente artístico como tal foi feito.

England's Dreaming, não é só um retrato do movimento mais tarde conhecido como punk, mas também a história de Londres, numa época conservadora do pós-guerra, e como a cidade contribuiu para a mudança.

Trata-se sem dúvida de uma obra jornalística muito completa e verdadeiramente obrigatória para quem quiser ficar a saber mais sobre o assunto.

domingo, 20 de junho de 2010

A Rainha no Palácio das Correntes de Ar


Este é um daqueles livros que tive pena de acabar. A sério. O autor tinha previsto 10 volumes. Ou seja, ainda faltariam sete, SETE, destas obras-primas para ler, depois de acabar este.

Mas o autor morreu antes de acabar o quatro. É pena. Ainda por cima, neste livro, que pega exactamente onde o anterior ficou, o brilhantismo deste autor é levado ao extremo. Não digo a arte de escrever em si, pois Stieg Larsson não é um literário. Não usa floreados, não se preocupa muito com o aspecto estético do texto, ou seja, não embeleza frases por aí além. Diz as coisas, preto no branco, sem zonas intermédias (um pouco como a visão que a personagem principal, Lisbeth Salander, tem do mundo), critica abertamente aquilo que quer criticar, sem vergonha e com um descaramento ímpar.

Não tem medo de usar expressões e/ou situações mais chocantes (algumas mesmo perturbadoras), e não tem medo, acima de tudo, de transmitir aquilo que pensa.

Stieg Larsson é um maravilhoso manipulador de enredos, como tive oportunidade de ver ao longo destes três livros. A forma como ele constrói o livro, peça atrás de peça, aparentemente desconexas, que se vão ligando umas às outras, sem fazerem realmente sentido, até que, de repente, aparece uma peça central, e descortina-se tudo. Tudo menos uma coisa: aquilo que vai acontecer na próxima página.

Pois é, apesar de nos dar as peças todas, nunca sabemos bem o que raio vai acontecer. Tanto somos distraídos por pequenos enredos secundários, como vemos esses enredos secundários profundamente enraizados na história principal. E tanto passa 50 páginas com a mesma personagem, como a faz desaparecer outras tantas, de tal maneira, que quando ela aparece, pensamos "donde raio é que este veio?".

Suspense, brutalidade, honestidade, crueldade. Fortes críticas sociais, importantes avisos humanitários. "A Rainha no Palácio das Correntes de Ar", ainda que não estivesse pensado para ser o último, faz esse papel de forma soberba. Quer dizer, toda a trilogia foi absolutamente fascinante, mas este em particular foi absolutamente sublime...

Nem sei bem o que dizer... Corro o risco de deixar coisas por dizer, mas se me ponho a contar coisas, corro o risco de nunca mais parar. 715 páginas digeridas em 6 dias, quase 2000, no espaço de 2/3 semanas, e não me custou nadinha. Aliás, passaram a correr, depressa demais, se me perguntarem. Acho que só posso dizer para lerem, à vontade, mesmo que leiam devagar, ou não sejam fãs da leitura. Vão ver que passam a ler mais depressa, e como se interessam mais por livros. Pelo menos até acabarem a trilogia.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

domingo, 13 de junho de 2010

A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo


O segundo livro da saga Millennium é tão viciante quanto o primeiro. E embora a primeira metade do livro, não seja, nem de perto nem de longe, tão interessante como o primeiro, a outra metade arrebatou-me por completo.

Sem querer entrar em muitos detalhes (é complicado, digo-vos), Lisbeth vê-se subitamente suspeita de três homicídios, e torna-se uma fugitiva. E quando o país inteiro está contra ela, Mikael Blomkvist apoia-a, contra tudo e contra todos, e inicia a sua própria investigação, para ilibar Lisbeth.

A perseguir Lisbeth, aparece um autêntico gigante loiro, aparentemente insensível à dor, e com uma força descomunal, que descobrimos, no final, ser... AH!, não vou dizer!

Como pano de fundo, temos o tráfico e exploração de mulheres, sob a forma de um jovem casal, um jornalista e uma criminologista, que procuram a Millennium para publicar um livro que denuncia grandes e importantes personalidades ligadas ao tráfico de mulheres. Tudo isto, está, obviamente, profundamente interligado, umas coisas com as outras.

É como no outro livro, um enredo denso, não no sentido de complexo, pois até se apanham os pormenores com relativa facilidade, graças à fantástica escrita do autor, mas no sentido de... denso, não arranjo outra palavra melhor. É um enredo com muitas voltas e reviravoltas, muitas ligações com enredos secundários, coisas desse género... É tudo menos linear, até.

E se há coisa complicada, é escrever um enredo destes, ocupando 600 páginas, e conseguir manter o leitor agarrado ao livro. Stieg Larsson faz isso tudo, com aparente facilidade, e com uma mestria sem igual. Personagens a roçar o inverosímil, mas que nunca duvidamos que talvez existam e sejam o vizinho do lado; capítulos relativamente curtos, que mesmo sendo grandes não damos por ela; suspense na dose certa, quase até à última página; e, claro, momentos absolutamente hilariantes.

Tudo isto se combina para que este livro seja mais uma obra-prima. A segunda seguida do autor... Mal posso esperar pelo terceiro livro!

domingo, 6 de junho de 2010

Os Homens que Odeiam as Mulheres


Depois de muito namorar esta saga, comprei-a duma assentada (na realidade, duas visitas à Feira do Livro), e depois de ler uns mais pequenitos e rápidos, embrenhei-me nela, começando, obviamente, por este livro, o primeiro da trilogia.

E só o larguei depois de o acabar. Todas aquelas críticas que já leram ou ouviram, a dizer que este livro é de leitura compulsiva? Isso é ser simpático! Este livro é completamente viciante! Eu sempre que podia lia um bocadinho, que se transformava sempre em 30 ou 40 páginas.

A tramóia principal está centrada num jornalista financeiro, Mikael Blomkvist, que denuncia um mafioso, mas que é acusado por difamação, e tem que passar 3 meses na cadeia. Sendo co-director da revista Millennium, decide tirar uma espécie de ano sabático, para não a prejudicar demasiado. É então que é contratado por Henrik Vanger para investigar o desaparecimento da sua sobrinha-neta, Harriet Vanger, usando como fachada, a história de que está a escrever a crónica da família Vanger.

Como incentivo, Henrik diz a Mikael que sabe coisas sobre o mafioso que o tramou, e Mikael, ainda que relutante, e sem muitas esperanças, aceita o trabalho.

Mas o grande interesse da história, para mim, não está aqui, mas sim na outra personagem principal: Lisbeth Salander. Lisbeth é apresentada como uma rapariga socialmente estranha e um prodígio da informática, ainda que, legalmente, seja declarada incapaz. Lisbeth trabalha, de tempos a tempos, como investigadora independente, numa empresa de segurança.

O caminho das duas personagens cruza-se, e trabalham em conjunto, chegando mesmo a desenvolver uma amizade, nos termos de Lisbeth.

A escrita não é complicada por aí além (embora a tradução deva ter sido tramada, o sueco é uma língua lixada), mas o enredo é, bem como as personagens. Reviravoltas atrás de reviravoltas, escondidas em reviravoltas que sofrem reviravoltas. É completamente alucinante! E as personagens, pelo menos as principais, e algumas das secundárias, têm toda uma profundidade que arrepia. Destaco, claro, Lisbeth. É, muito provavelmente, a melhor personagem que alguma vez vi na minha vida!

Dito isto, leiam! Não se assustem com o número de páginas, lê-se num instante. É um livro completamente impossível de largar, digo-vos.