quarta-feira, 27 de abril de 2011

Balanço Épico


Foi uma batalha épica. Uma longa temporada, de quase 3 meses, que deu origem a 15 posts (já a contar com este) e a algumas dores de cabeça, que isto não foi nada fácil. Estas epopeias não se lêem como os livros a que estamos mais habituados, embora estejam inseridos no género narrativo, e muito menos como se se estivesse a ler poesia, embora as semelhanças a nível da forma sejam imensas. São leituras para serem feitas com imensa calma, com imensa paciência e com um dicionário por perto, de preferência.

Agora que já assustei todos os interessados em ler estes livros, deixem-me passar às coisas boas. Sabem aquela sensação de verem um daqueles filmes, ainda a preto e branco, que ficaram na história na cinema? Aqueles filmes que praticamente definiram géneros cinematográficos inteiros, ou que criaram técnicas ainda hoje utilizadas? Pois. Ao ler estes 4 livros, que representam apenas uma pequena (ainda que importante) parte daquilo que este género tem para oferecer, senti-me como se estivesse a ler autênticos pedaços da história da literatura, que é, afinal de contas, o que eles são.

São livros verdadeiramente épicos, dignos de se chamarem epopeias. Confesso que me rendi ao género, o que torna as minhas opiniões, e este próprio balanço, algo bastante parcial, logo à partida, mas vou tentar não ser demasiado efusivo, e deixar os gritinhos histéricos para as adolescentes que rezam todos os dias para que a Meyer publique um novo livro. Embora, caros leitores e caras leitores, não se escapem a um texto mais longo que o habitual. Considerem-se avisados.

Ora bem, começando pelo princípio: Os Lusíadas. Quando o comecei a ler não estava assim muito inclinado para gostar, devido às minhas experiências anteriores (viva as leituras obrigatórias no 9º ano!), mas depois de algumas estrofes dentro da coisa fiquei, à falta de outra expressão melhor, doidinho de todo. Sim, está lá o nacionalismo exacerbado, os ideais algo retrógrados e ultrapassados, a fé completamente irracional, mas também lá anda o descontentamento com a situação do país além dos traços de uma fortíssima ideologia humanista. E, como eu não me canso dizer, é preciso dar algum crédito ao Camões. 8816 versos sempre com o mesmo esquema rimático, sempre com a mesma métrica, e ainda por cima conseguindo manter a coerência da história...

Depois veio o ponto mais baixo da temporada: Beowulf. De autor desconhecido, o mais pequeno dos 4 foi lido em inglês e não correu muito bem. Eu, que tanto gosto de me gabar do meu bom inglês, fiquei completamente às aranhas com aproximadamente metade do que era dito. Às tantas habituei-me e lá entrei um bocadinho melhor no esquema, mas foi uma leitura praticamente perdida. Não consegui absorver a musicalidade e a cadência como deve ser e tive vários problemas de vocabulário. Fica no entanto a garantia de voltar a pegar nele, daqui a uns tempos.

De seguida foi a vez de partir para a epopeia mais excêntrica da minha lista: Fausto. Com a sua estrutura hiper-mista de narrativa/poesia e teatro, é um épico ligeiramente diferente dos outros, muito mais liberal em termos de forma, integrando até pedaços em narrativa. Enfim, foi uma leitura curiosa, que demorou mais tempo do que aquilo que eu tinha previsto, mas que valeu a pena e de que maneira! Tem um tom algo surreal, especialmente à medida que a leitura se aproxima do fim, e deve contar para alguma coisa o facto de ter sido o livro que praticamente criou toda a mística em torno dos pactos com o Diabo.

Por fim, o avozinho das epopeias modernas: Divina Comédia. Nunca vi uma obra cujo nome do género em que está inserida se adequasse tão bem. Epopeia. Fica no ouvido e fica na cabeça. Passei metade da temporada com este livro, graças principalmente à escola, mas também às notas desta edição. Já aqui falei e re-falei montes de vezes deste assunto, mas não posso fazer este balanço sem referir o quão ridículas são estas notas. Basta dizer que metade do livro é a Divina Comédia, e que a outra metade são as suas notas. No entanto, nada que tirasse a grandiosidade a este livro, que pura e simplesmente adorei, apesar da sua mensagem ir contra as minhas próprias ideias.

No geral acho que o balanço é mais do que positivo. Li grandes obras-primas da literatura, delirei por completo, aborreci-me de morte, desejei nunca ter feito esta temporada, desejei ter mais epopeias à mão... O que é que se pode dizer, foi toda uma (Vasco da) gama (que piada parva) de emoções, que espero ter oportunidade de repetir, seja epopeias seja outro tema. Foi algo de que gostei muito, escrever mais do que um post acerca do mesmo livro, para dar uma visão mais detalhada da minha leitura. Espero que tenham gostado de me acompanhar tanto como eu gostei de ler estes épicos.

P.S.: Aceitam-se sugestões para a próxima temporada!

15 comentários:

Iceman disse...

Olá Rui!
Louvo a tua paciência e atitude ao empreender essa epopeia em volta dos épicos.
Nunca fiz algo do género e confesso que nem me apetece, pois e isso depreendo um pouco do teu texto, torna-se obrigação e isso é algo que me recuso enquanto leitor.
Em todo o caso "Os Lusiadas" é uma obra soberba, das maiores de todo o mundo. Tive a sorte de ter como professora a senhora que escreveu aquele livrinho amarelo dos Apontamentos da Europa-América (Teresa... qualquer coisa). E explicou a lógica da obra e a intenção do poeta.

Os outros não li.

Abraço!

WhiteLady3 disse...

Adorei seguir esta temporada! Gostaria de fazer o mesmo mas é uma missão difícil, como o demonstraste, ainda que seja recompensadora. Se já tinha curiosidade sobre as obras mais curiosa fiquei, mas ainda não é para já. :P

Quanto a sugestões... sei lá, uma temporada Shakesperiana? Autores portugueses ou prémios Nobel (à semelhança da Estante)? Um qualquer país/local/região? Vampiros? :D

Rui Bastos disse...

Iceman, muito obrigado :D Confesso que se pode tornar uma obrigação, mas em minha defesa digo-te desde já que se se tornasse maioritariamente obrigação, desistia no momento. O facto é que eu gosto de conhecer e de aprender, e ler estas epopeias permitiu-me aprender, e muito. Mas compreendo o teu ponto de vista, embora no meu caso talvez tenha sido pela escolha do tema... Os épicos são pesados.

Quando aos Lusíadas, achei, como disseste, absolutamente soberbo. E tiveste uma grande sorte, com a professora! *.*

Abraço!

White_lady, muito obrigado :D é difícil, mas talvez tenha sido um bocado por causa do tema, como já disse em cima. Ainda bem que te despertei a curiosidade :D

Olha, gostei imenso dessas tuas sugestões, ficam anotadas :O essa última, vampiros, é que... nhecks xD

Cat SaDiablo disse...

Missão cumprida! Parabéns pela perseverança, já que não deve ser nada fácil ler cada um desses livros na íntegra individualmente, quanto mais vários de seguida :D

Quanto à sugestão da Whitelady à qual torceste o nariz (vampiros :P), que tal uma temporada de vampiros clássicos ao invés da fantasia urbana mais abundante actualmente? Já se escreve sobre estas criaturas há séculos ;)

Rui Bastos disse...

Merci! Pode-se tornar complicado, mas, e aplicando aqui um cliché tão cliché que se torna cliché dizer que é um cliché, quem corre por gosto não cansa :D

Quanto à sugestão à qual torci o nariz, je sais, já li o Drácula de Bram Stoker, A Hora do Vampiro, de Stephen King, e os primeiros 5 da Charlaine Harris... E tenho uma TREMENDA curiosidade no que toca aos livros da Anne Rice O.O Mas é daquelas temporadas que não me vejo a fazer, não sei porquê...

Mas vá, devido ao pedido de várias famílias, irei ter isso em consideração, pode ser que na Feira do Livro veja coisas interessantes!

Cat SaDiablo disse...

Ah se já leste O livro de vampiros, Drácula e o do Stephen King...
Foi só uma sugestão, não te sintas pressionado :D

t i a g o disse...

Fantástica, a piada do (Vasco da) Gama. :D

Parabéns pela tua coragem em teres empreendido esta temporada.~Confesso que estava um bocado descrente em conseguires levá-la avante por mais do que dois livros, mas mostras-te-te um leitor determinado. Parabéns!

Só ficou a faltar «Uma Viagem à Índia», do Gonçalo M. Tavares. O recém-nascido das epopeias modernas... ;)

Boas leituras!

Rui Bastos disse...

Cat, ora essa, ainda há aí tanta boa literatura vampírica para descobrir :D

tiago, merci! E gostaste da piada e tudo :D

É sempre bom saber que ultrapassei expectativas! Só espero que não tenhas apostado com ninguém que eu não ia conseguir xD

Quanto à "Uma Viagem à Índia", já está na lista para vir da Feira do Livro, eheh :D

Alice Matou-se disse...

Mais um triunfo!

Rui Bastos disse...

Merci camarada :D

R. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
R. disse...

Falando na Meyer, desafio-te a leres o Nómada se ainda não tiveres lido (e se aceitares, pois claro). Descansa que não inclui vampiros.

Rui Bastos disse...

Por acaso até já li e gostei moderadamente (tanta palha -.-).

R. disse...

Estava à espera de muito pior quando li (não se pode esperar muito quando o que antecede são vampiros reluzentes) mas a história surpreendeu-me.
Que tal uma temporada dedicada a Shakespeare e aos grandes clássicos Ingleses?

Rui Bastos disse...

Isso até que é bem pensado, ando com vontade de ler o Rei Lear, graças a'O Bobo, de Christopher Moore, e sempre tive curiosidade em ler o Hamlet... Por agora não tenho disponibilidade, mas vou anotar essa sugestão ;)