terça-feira, 11 de setembro de 2012

It

Título: It
Autor: Stephen King

Sinopse: To the children, the town was their whole world. To the adults, knowing better, Derry, Maine was just their home town: familiar, well-ordered for the most part. A good place to live.
It was the children who saw - and felt - what made Derry so horribly different. In the storm drains, in the sewers, IT lurker, taking on the shape of every nightmare, each one's deepest dread. Sometimes IT reached up, seizing, tearing, killing...
The adults, knowing better, knew nothing.
Time passed and the children gre up, moved away. The horror of IT was deep-buried, wrapped in forgetfulness. Until they were called back, once more to confront IT as it stirred and coiled in the sullen depths of their memories, reaching up again to make their past nightmares a terrible present reality.

Opinião: Quando digo que Stephen King é o meu escritor favorito até à data, não o faço de ânimo leve. Passam-me pela cabeça nomes como Verne, Saramago, Lovecraft, Clarke, Poe e até o mais recente David Soares, todos eles autores cujas obras me fascinaram e que mantenho cuidadosamente no meu top 10.

Mas acho que só King me consegue prender como o tem feito, livro após livro. E se eu antes já pensava isso mas tinha dúvidas ao pensar n'O Evangelho Segundo Jesus Cristo de Saramago, n'A Conspiração dos Antepassados de Soares, em qualquer livro de Verne ou no Ctulhu de Lovecraft, essas dúvidas dissiparam-se com este It.

É claro que Verne era um génio absoluto que praticamente criou novos géneros literários, tal como Poe; que nunca ninguém conseguiu criar uma mitologia monstruosa de forma tão genial como Lovecraft; que os livros de Saramago são odes à condição humana, obras-primas da literatura, da arte e da Humanidade; que Clarke foi um dos mais brilhantes e criativos escritores de ficção-científica de sempre; e que Soares é capaz de representar, sozinho, uma mudança no panorama literário nacional... mas nenhum deles conta histórias como King o faz.

Não me interpretem mal: King é muito menos literário do que qualquer um daqueles autores. Alguém, talvez ele próprio, já classificou os seus livros como fast-food literária. Não discordo. Em termos puramente técnicos e de estética literária, não incluiria King no meu top 20.

Só que as histórias têm um profundo efeito em mim. Quando bem contadas, são capazes de estimular o pensamento crítico de forma muito mais intensa do que qualquer texto puramente filosófico.

A explicação, para mim, é simples. Um texto filosófico implica um esforço consciente e uma constante atenção a tudo o que é lido. Uma pessoa ao ler filosofia pura está activamente a pensar. As histórias conseguem fazer algo excepcional quando bem construídas e bem contadas: envolvem o leitor e obrigam-no a sentir sentimentos que não lhe pertencem. Quando o leitor dá por ela, teve uma qualquer revelação quase inconsciente, pois as boas histórias podem fazer pensar de forma passiva.

É esse o segredo e aquilo que tanto me atrai para uma boa história, a capacidade que têm de fazer pensar quase sem darmos por isso. E King é um contador de histórias por excelência.

Já tenho esta noção desde o primeiro livro que li deste autor, o Carrie. Percebi logo que ele tem 2 grandes pontos fortes: a mestria na construção e utilização de um grande leque de personagens, e a excelência a contar histórias.

Outra coisa que sei é que ainda não devo ir a meio desta opinião, mas é compreensível que um épico de 1376 páginas que seja uma verdadeira obra-prima do meu escritor favorito dê origem a um texto maior do que é habitual.

E só agora começo realmente a falar do livro em si. Não tenho absolutamente nada de negativo a apontar a esta obra. O enredo é complexo e desenrola-se habilmente através de uma narrativa que segue várias histórias em paralelo, com várias dezenas de personagens, todas elas com uma personalidade bem demarcada e construída.

A história, de uma forma geral, mais do que seguir o grupo principal de sete protagonistas, enquanto crianças e adultos, é uma história da localidade de Derry, no Maine, e de It, uma entidade monstruosa que faz parte da mitologia própria do Universo criado transversalmente por King ao longo de vários dos seus livros.

It tem um ciclo muito próprio: "acorda" mais ou menos a cada 27 anos para ser a causa de um período de terror recheado de assassinatos macabros e desaparecimentos misteriosos. Após saciar o apetite, "adormece" e como que hiberna durante 27 anos, mais coisa menos coisa.

Mais mais do que isso, tendo a história perfeitamente contada que tem, este livro é sobre o medo, a amizade, a família, a vingança, a coragem, a memória, a loucura, a infância, a mudança para a vida adulta... E provavelmente podia ficar aqui a escrever mais umas coisas, mas estas parecem-me ser as essenciais. King não trata directamente os assuntos, apresenta-os e mostra-os.

Fazendo uso do grande trunfo das histórias, preocupa-se primeiro em contar uma boa (excelente!) história, com atenção especial às personagens e aos meandros psicológicos, tanto individuais como colectivos. Só depois, quase como efeito secundário da história que conta, acaba por fazer pensar em todos aqueles assuntos.

Sei que devo parecer um fã demasiado excitado, ou uma adolescente a roçar o histerismo, daquelas que gritam nos concertos pelos seus ídolos, mas não consigo evitar, eu quero, aliás, preciso, que as pessoas tenham noção da genialidade deste livro e deste escritor.

Além de tudo o que já disse, King é a prova viva de que o horror é um género literário tão passível de ser genial como qualquer outro.

Portanto, acabo esta opinião, já monstruosamente extensa, dizendo sem hesitação que It é o melhor que já li de Stephen King, e que é também um dos melhores livros que já li na minha vida.

P.S.: Definitivamente não aconselhado a quem tiver problemas com palhaços!

5 comentários:

N. Martins disse...

Também gosto imenso de King, se calhar não de forma tão entusiasta, mas gosto! :) O It é muito bom o palhaço é assustadoramente marcante. A frase "They all float down here! volta não volta surge na minha vida! :p
Se gostaste, tens de ver o filme. Embora feito para um público mais novo, não deixa de ser interessante e o palhaço é genial. :)

Liliana Lavado disse...

Concordo, King é um mestre contador de histórias. Mas por vezes o homem parece vomitar palavras e os livros são muito mais longo do que "havia necessidade", no entanto, é difícil resistir :)

Rui Bastos disse...

Tenho de facto que ver o filme ;)

E Liliana, eu pessoalmente nunca senti isso, no que já li dele... Com que livro sentiste isso?

Samuel disse...

Olá Rui! Maravilha de resenha. Mas vou dizer, já li dezenas e mais dezenas de livros do mestre e por incrível que pareça, não li It. Assisti o filme quando criança e recentemente o comprei. Com isso, temo ter "estragado" a leitura do livro em si. Mas algum dia o encaro. E ótima sua visão sobre o King. Concordo plenamente sobre como suas histórias continuam a ressoar em nossas mentes e corações por muito tempo. Já leu a Torre Negra inteira? Fora as muitas metáforas e metalinguagens geniais que muitas vezes ele usa. Muitas "entrelinhas" fantásticas, como pro exemplo em Duma Key, sobre o poder e o extase de um artista. Em Love, sobre um lugar mistico para curar feridas, para se inspirar, um lago onde todos nós ainda vamos beber...

Poucas pessoas percebem isso nas obras dele. Até mesmo entre os leitores fiéis.

Abraço! Blog bacana, tá adicionado.

Rui Bastos disse...

Obrigado Samuel! Acho que não ter lido o It é uma falha imperdoável :) Tão grande como eu ainda não ter sequer pegado na série da Dark Tower...