sexta-feira, 8 de março de 2013

O dom da multileitura

Quando se é um leitor ávido como eu, pode-se tornar complicado estar-se limitado a ler 1 livro de cada vez. Há uma certa frustração em ter dezenas e centenas de livros em casa para ler, e alguns impossibiliões por esse mundo fora, e ter que avançar a um ritmo tão lento. Eu até leio mais depressa que muita gente, ainda que ninguém o diga quando reparar que ando a ler o Silmarillion há coisa de 1 mês, mas continua a ser lento.

Alguém disse um dia que havia demasiados livros para tão pouca vida, ou qualquer coisa do género. E eu não podia estar mais de acordo. Enquanto leitor tenho simplesmente que aceitar que nunca irei ler tudo o que quero. Posso eventualmente chegar a um ponto na minha vida em que penso "bem, já li muito, muito mesmo... posso morrer feliz", mas esse muito será sempre pouco, e esse feliz terá sempre resignação à mistura.

Mas alegrem-se que há gente que consegue ler vários livros ao mesmo tempo! É discutível se essas pessoas chegam de facto a ler mais que pessoas que lêem um de cada vez, ou se não acabam por se dispersar demasiado e não aproveitar nenhuma das leituras que fazem, mas pelo menos de certeza que têm a ilusão de que estão a ler mais.

Seja isso uma coisa boa ou uma coisa má, eu nunca o consegui fazer. E acreditem que já tentei, como acho que toda a gente acaba por fazer eventualmente. Não me lembro de quando, mas sei que não apreciei a experiência. Quando estou a ler um livro gosto de me dedicar a 100% a essa leitura, e ler outra coisa ao mesmo tempo distrai-me demasiado. Portanto, um livro de cada vez tem sido a minha técnica e assim continuará, parece-me.

Bem, mais ou menos. Descobri há pouco tempo que há um tipo muito especial de livros cuja leitura consigo conciliar na perfeição com outro livro qualquer. Graphic novels. E quem diz isso, diz BD's. Sou bastante fã e sempre tive bastante pena de não ler mais desse tipo de literatura. E pelos vistos consigo ler um livro daqueles a que estamos mais habituados e uma BD ou graphic novel sem que as leituras tentem andar à porrada uma com a outra dentro da minha cabeça.

Excelente! Mas agora surge o problema: onde arranjar coisas dessas para ler? Costumam ser bem mais caras que os livros e por cá não há propriamente oferta nem distribuição tão alargada como outros livros. O que sinceramente é uma pena, tenho sempre um aneurisma literário quando vejo 3 edições diferentes do Fifty Shades of Grey espalhadas por todo o lado, e nem sequer vejo um único Watchmen, que é dos melhores livros que já li, por exemplo.

Felizmente sou um indivíduo que até pensa. A minha solução é bastante simples e penso que basta dizer-vos que quem inventou o conceito de biblioteca devia ser canonizado em todas as religiões.

10 comentários:

Carolina disse...

quem te disse que na tua vida não terias tempo para ler todos os livros que querias foi o metro do saldanha. mais concretamente Almada Negreiros com "Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria."

Rui Bastos disse...

Exacto!

Sara disse...

Eu normalmente também só leio um livro de cada vez...Já cheguei a ler três ao mesmo tempo, mas são situações pontuais. Prefiro concentrar-me numa única história...De qualquer modo acho que o mais importante é desfrutarmos a leitura, que deve ser sempre um prazer e não uma obrigação.

cumps

Rui Bastos disse...

Sim, claro, desde que a coisa corra bem :)

André Nuno disse...

O dom da multi-leitura foi predicado com o qual alguém se esqueceu de me "abençoar". Também eu leio relativamente rápido e consigo tragar muitas páginas em pouco tempo (dependendo do livro, claro) e tão pouco consigo ler mais do que um livro de cada vez. Como sucederá a muitos leitores, "transporto" comigo durante o dia, em casa ou no trabalho, o enredo da obra que estiver a consumir, sendo que, por sua vez, de alguma forma, esta também me consome e nos alimentamos um do outro. Para mim isso é impossível de ocorrer se lesse dois ou mais livros.
Também penso que não existe vantagem nenhuma em conseguir fazê-lo. Se numa hora ler 70 páginas e tiver duas horas para o fazer parece-me completamente irrelevante que as 140 pág. pertençam a um só livro ou então que sejam 70 em dois diferentes.
O ponto que referes, todavia, tem toda a lógica uma vez que diferentes géneros acabam por não se esbarrar no nosso cérebro, da mesma forma que ver um filme ou tv não interfere com nenhum livro.
:)

Rui Bastos disse...

Concordo! E já ando a pôr em prática!

Iceman disse...

Bom, eu há uns anos que comecei a ver isso de ler de uma forma mais tranquila.
Ou seja, eu também me sentia frustrado por ter sempre tantos livros para ler e tão pouco tempo. Cheguei a andar a ler 5 livros em simultâneo. No entanto, um dia parei e pensei no porquê dessa paranóia e foi remédio santo.
Primeiro já não me importuna ter mais de uma centena de livros para ler. Não quero saber. Quando acabo um, lá vou à pilha e decido o que vou ler a seguir.
Depois, comecei a ler apenas 2 ou no máximo 3 em simultâneo e de uma forma muito disciplinada. Nunca são do mesmo género e dedico vários periodos do dia a todos, embora seja inegável que, quando o livro me agarra mesmo, dedico-lhe muito mais tempo em prejuízo dos outros.
Em todo o caso não consigo ler apenas um de cada vez.

Rui Bastos disse...

Compreendo, e lá está, lês coisas de diferentes géneros e tens alturas específicas do dia para cada um... Não deixas que as coisas se misturem.

Cat SaDiablo disse...

Eu leio vários livros ao mesmo tempo, ou leio apenas um, conforme calha, conforme a vontade no momento e nunca dedico o mesmo tempo a todos. Sei que demoro mais tempo a ler os 3 livros que estiver a ler do que se me dedicar a um de cada vez.
Esta "multi-leitura" não tem rigorosamente nada a ver com vontade de ler mais ou mais rápido, simplesmente pego num livro que me apetece ler, e de repente apetece-me ler outro, sem horário, sem regras. E facilmente volto ao anterior. Muitas vezes se prende com questões práticas: estou a ler um calhamaço que não me dá jeito levar para os transportes, pego num mais pequeno, ou no kindle.
Compreendo a nuvem negra sobre as nossas cabeças leitoras "tantos livros, tão pouco tempo", mas não deixo que isso se transforme numa paranóia ou numa obrigação, e me estrague o prazer de ler. Já estou como o Iceman, quando acabar o que estou a ler, logo se vê.

Rui Bastos disse...

Vejo que é uma opinião partilhada por algumas pessoas... E sinceramente compreendo quando falas desse exemplo de ler um calhamaço, lembro-me perfeitamente de quando li "O Nome do Vento" que só podia ler em casa, nada de levar para a escola, para os tempos mortos!