sexta-feira, 3 de maio de 2013

Deixar um livro a meio


Este é um assunto que por vezes chega a ser delicado, quando discutido entre leitores assíduos. Há quem apoie que seja algo que se deva fazer, e também há quem ache que é algo quase herético a nível de leituras.

Pessoalmente ainda não sei bem de que lado me situar. Se por um lado compreendo o argumento de que há demasiados livros para ler em pouco tempo, e é parvo perder tempo com um que não gostamos, por outro compreendo as dificuldades que se podem sentir em deixar um livro a meio.

Basta imaginarem a minha curiosidade natural e as minhas ligeiras tendências obsessivo-compulsivas para terem noção das ditas dificuldades. Por muito terrível que um livro seja, eu quero saber o que acontece. Por mais execrável que a escrita seja, pode acontecer eu ficar interessado na história e precisar de saber o que acontece.

É por isso que tenho sempre tanto cuidado quando pego em sagas: já sei que vou ter que a levar até ao fim, por muito abominável que aquilo esteja a ser. Enfim, há excepções... Não tenciono ler mais uma linha que seja escrita por um certo "autor" que é um dos meus ódios de estimação, por exemplo. Mas também não chego a considerar os seus livros como livros a sério, não é verdade?

Deixando o veneno para outras conversas, posso no entanto dar outro exemplo, bastante recente até: depois de ler A Guardiã da Espada, de Bruno Martins Soares, não fiquei particularmente fascinado pela saga, antes pelo contrário. Mas ainda havia interesse suficiente para querer ler os outros livros, mesmo que não estivessem convenientemente inseridos num mesmo calhamaço, à mão de semear. A história não se estava a mostrar nada de especial, a escrita tinha alguns momentos praticamente ilegíveis, e o autor insistia em povoar os diálogos com "AHHHHH", e "IIIIIHHHH", ou "AH AH AH AH AH AH AH". E ainda assim, eu queria ler o resto. E ainda bem que o fiz, que a qualidade melhorou consideravelmente, sem nunca chegar a ser excepcional, mas pronto.

Portanto, e agora? Sinceramente não sei muito bem qual será a minha reacção se ao ler um livro vir que aquilo é uma grande bodega e que devia era atirá-lo pela janela. Por um lado acho que é sempre bom dar oportunidade ao livro de se redimir, já li bastantes livros e contos em que tudo parece muito banal e depois, de repente, as últimas linhas me deixam de boca aberta. Mas por outro, cada vez mais sinto que há demasiados livros para tão pouco tempo.

Já aqui falei dessa urgência, que provavelmente nem que me sentasse num canto durante meses a fio, a ler ler ler, ficaria saciada. É uma urgência que muitos leitores sentem de certeza, ou sentiram em algum momento, e com a qual muitos ainda não aprenderam a lidar, entre os quais me incluo. Suponho que um dos primeiros passos seja exactamente deixar livros a meio. Ou nas primeiras duas páginas. Se estão realmente a ser desagradáveis, largá-los, não me obrigar a sofrer. Tanto livro que por aí há, para quê desperdiçar o meu tempo, bastante limitado, a ler as abominações e os livros que não me despertam o mínimo de interesse?

Talvez para não ficar para sempre a pensar no que raio acontece! É um problema! Com o qual terei que lidar, mais cedo ou mais tarde... Pois bem, fiéis leitores, sois minhas testemunhas: o próximo livro que me esteja a levar aos arames metafóricos, ficará por acabar, assim que a leitura se tornar num sacrifício. Vai custar, mas vai ter que ser.

4 comentários:

Patrícia disse...

Olha, estou como tu. Não sei.
Em teoria acho que deixar um livro quando ele começa a chatear é o ideal mas na prática não é bem assim.
Dois exemplos: Não consegui passar do terceiro capítulo do "Arquipélago da insónia" do António Lobo Antunes. Não estava a perceber nada daquilo. Sei que ainda vou tentar novamente. O raio do livro é uma espinha na minha garganta.
Estive a ler o "O remorso de Baltazar Serapião" do Valter Hugo Mãe. Detestei mas li até ao fim. Não me passou pela cabeça desistir do livro apesar de não ter gostado nem da história nem do tipo de escrita.
E no entanto há livros que deixo a meio sem culpa, como aconteceu com o "A morte do ouvidor" de Germano Almeida. O senhor escreve muito bem, mas o livro é uma seca. um dia acabo de o ler (provavelmente numa altura de insónia que é quando acabo de ler os livros que me deixaram indiferente.
Porque é mais fácil parar um livro que me é indiferente que um que me provoca emoções, sejam elas a impotência/burrice/frustração ou asco.
Boas leituras

Sara disse...

Eu tenho uma posição em relação a isto que é tentar levar as coisas o mais relaxadamente possível. É verdade que há biliões de livros e nós vivemos pouco tempo, mas e daí? Para mim o importante é o que se aprende e o que se retira da leitura, independentemente da quantidade que se consegue ler...Da mesma forma se estivermos a ler um livro e não estamos satisfeitos porque não largar? Acho que a leitura deve ser um prazer antes de mais nada...Por exemplo há uns tempos deixei por ler um livro do Paulo Coelho e não me arrependo, aquilo era uma verdadeira treta...Porque havia eu de continuar? Depois há livros que largo, volto a pegar, volto a largar...Pessoalmente não me aflige nada que se deixe livros a meio, mas lá está cada bibliófilo com a sua mania :)

cumps

Anónimo disse...

Como eu entendo o teu desabafo...quando vejo que o livro não tem interesse para a minha percepção pessoal, deixo-o a meio, sem receio...Mas enfim, cada um na sua.

Sérgio M Gueifão

Rui Bastos disse...

Respondendo aos 3, é uma questão complicada... Eu pessoalmente, é como digo, acho que tenho é que passar a deixar mais coisas de lado.