domingo, 2 de junho de 2013

As raparigas lêem romances, os rapazes lêem ficção científica


Se há coisa que chateia toda a gente, são os preconceitos. Não há nada pior do terem uma ideia já formada nossa, sem sequer nos conhecerem ou sem nos terem visto na vida, baseada apenas na nossa aparência, ou no que ouviram sobre nós. No caso de ser uma coisa má, como é óbvio, que nunca vi ninguém chatear-se por lhe dizerem "tu deves ser um tipo inteligente, esses óculos não enganam!".

O caso piora quando os preconceitos são sexistas. Quando uma pessoa julga outra pelo tipo de genitália, o nível de aberração atinge níveis para lá do inimaginável. Felizmente isso tem mudado. Muito lentamente, mas tem mudado.

Mas, e por muito moderna e evoluída que a sociedade esteja, continuam a haver atrasados mentais por todo o lado. Só as meninas é que vão para enfermagem, só os meninos é que vão para mecânica. Os homens que se depilam são larilas, as mulheres de cabelo muito curto são fufas. Trabalhar nas obras é para os machos, fazer a lida da casa é para as fêmeas.

Nem sequer faz sentido. Quem me conhece sabe que eu faço algumas (muitas, pronto) piadas sobre este tipo de coisas, mas não passam disso mesmo, piadas, também faço piadas sobre pessoas em cadeiras de rodas, pessoas a morrer e bebedeiras, e não acho qualquer tipo de piada a nada disso. Uma coisa não impede a outra, e as minhas piadas machistas não fazem de mim machista. Talvez ligeiramente, de vez em quando, para embirrar com as meninas, vá...

De qualquer forma, acho que toda a gente concorda comigo de que machismos e coisas afins são ideologias pura e simplesmente ultrapassadas e obsoletas, sem ponta por onde se lhes peguem.

Faz sentido, não é? E devia ser verdade em todo o lado, não é? Incluindo no mundo literário, certo? Pois é, acho que já conseguem imaginar para onde estou lentamente a caminhar. Nem vou sequer falar no facto de haver poucas ou muitas autoras neste ou naquele género, comparativamente ao grande ou pequeno número de autores nesse mesmo género. Falo de coisas tão simples como o que ouvi uma senhora dizer, na biblioteca: "Aquela estante ali ao fundo tem os romances, para as meninas, e aqui atrás está a secção de banda desenhada e de ficção científica e essas coisas, para os rapazes.".

Ia tendo um surto de raiva, ali mesmo. Para começar, levantei a cabeça e vi que na "estante ali ao fundo", com "os romances para as meninas", tinha Saramago, cujo livros saltam à vista. Aquilo não era uma estante com livros de amor e coisas do estilo, como a senhora devia querer dizer, mas sim de romances, livros com uma certa extensão que a senhora rapidamente decidiu reduzir a histórias de amor, porque se são romances são obviamente histórias de amor.

Confesso que isto podia ser facilmente desculpável, não fosse o facto de a referida senhora trabalhar na biblioteca. Quanto a vocês não sei, mas eu espero que os bibliotecários tenham o mínimo de cultura literária. Já nem peço conselhos literários, mas que saibam que romances não são necessariamente histórias de amor, por exemplo...

E depois vem a outra parte. O final da frase é um autêntico atentado. Aquele "e essas coisas", dito com o tom de voz condescendente com que foi dito, reduz a BD e a FC a literatura menor, como tanta vez se tenta fazer, de forma errada. Ambas as coisas têm obras capazes de ombrear com muitas grandes obras literárias que por aí andem. Depois diz que essas coisas são para os rapazes, porque ai da rapariga que se aventurar por um livro com naves espaciais, ou com cyborgs, ou com mais desenhos que palavras e vá-se lá saber que outras parvoíces! E se juntarem ambas as coisas ainda conseguem ler um "a literatura menor fica para os rapazes", que vou tentar não forçar muito, já que pode ser apenas a minha interpretação semi-enraivecida da coisa.

Mas quer dizer, acho que já disse mais do que suficiente, não? Segundo esta frase, eu, por ter nascido gajo, não posso ler uma história de amor. Ou não é normal que o faça. E as raparigas não podem pegar em livros de FC. Ou não devem. Ou estou a levar a frase demasiado a peito.

Uma coisa vos digo... Estes preconceitos, quer sobre os géneros, quer sobre quem lê o quê, têm que acabar. Já chega de dar Nobeis a poetas, arautos de um género literário superior, já chega de dar prémios por atacado a escritores ditos modernos que não sabem contar uma história, já chega de renegar livros e autores do Fantástico para os cantos escuros das livrarias, já chega de sexismos... já chega!

6 comentários:

Ana/Jorge/Rafa/Júlia disse...

Uma mentalidade absolutamente retrógada, essa dos preconceitos, desde os sexistas até aos puramente idiotas como "se lês fantasia, és um cromo que não sai da cave".

Qual é o problema de um rapaz ler Jane Austen, ou de uma rapariga desfrutar de um Arthur C. Clarke intervalado com Tolkien?

Jorge

Rui Bastos disse...

Beats me... Mas há tantos preconceitos do estilo que se torna difícil falar deles todos. Alguns estão tão enraizados que eu próprio já senti que estava a ser preconceituoso, nalgumas situações.

slayra disse...

Ahahah! Que peça, essa senhora. xD Espero que já não haja muita gente assim porque sou uma menina e gosto bastante de ficção científica e de manga!

Livros são livros e mais nada. Uma bibliotecária, que supostamente gosta de livros não deve andar a fazer esse tipo de distinções estúpidas. Que haja "livros para crianças" ainda vá (não queremos os putos de 6 anos a ler Henry Miller, penso eu), mas livros para meninos e meninas? Nunca tinha ouvido. O_O Parece ficção científica. xD

Rui Bastos disse...

Pois, epah, nem sei... É verdade que ela estava a dizer aquilo para juventude, podia querer simplificar a coisa, ou algo do género, mas estava a fazê-lo mal... Também podia estar a tentar ir ao encontro dos gostos, do estilo "ali estão os romances, que normalmente são mais as meninas que lêem...", mas still... E continuou a encaixotar romances portugueses de vários géneros dentro da caixa de "histórias de amor"!

Sybylla disse...

Sou mulher e ficção científica é o gênero que mais leio, eu tenho um asco legítimo por romancezinhos, pois eles não me agregam em nada.

Se as mulheres e meninas não leem ficção científica é porque ela tem sido produzida na base do mais do mesmo, pelos mesmos autores, que repetem as velhas fórmulas sexistas.

A partir do momento em que ficção científica for mais palatável, sem tantos preconceitos, poderemos agregar mais leitores.

momentumsaga.com

Rui Bastos disse...

É um ciclo vicioso... Enquanto os autores forem assim, não há mais leitores, logo não há mais escritores diferentes, etc... Mas não sei se o problema estará todo aí :)