sábado, 7 de dezembro de 2013

Aventuras Fantásticas

Quem é que se lembra destes fantásticos livros verdes, de capas e ilustrações aterradoras, histórias do mais agreste possível e uma capacidade de sugar horas superior a muita "literatura a sério" que já li?

As Aventuras Fantásticas eram espectaculares! A escrita não era particularmente extraordinária, e havia pedaços de história que davam vontade de chorar de tão maus que eram. Mas o conceito? Genial.

Para quem não conhece, estes livros são jogos. Não se lêem de uma ponta à outra, e raramente se percorre a mesma história duas vezes.

Primeiro há uma explicação de como tudo funciona, depois um quarto de marcações e depois começa a história, com uma ou duas páginas de "ambiente", normalmente. O livro dirige-se a nós, leitores, e diz-nos que somos um herói qualquer, ou o valente capitão de uma nave espacial qualquer, ou algo do género, sempre bastante heróico, e conta-nos o problema principal. Depois disso, atira-nos para o mundo!

É então que se lê o parágrafo marcado como 1. No fim temos escolhas, que levam a parágrafos diferentes, e conforme decidirmos, vamos afectar a história que vamos ler/viver.

Pelo meio há porrada, artefactos mágicos ou tecnologia fantástica, monstros aberrantes ou mutantes espaciais, um sem número de missões secundárias, enigmas, situações complicadas e mortes, muitas mortes. Ou escolhemos mal o parágrafo e caímos num poço, ou não conseguimos derrotar uma criatura qualquer, ou bebemos do frasco errado e somos transformados num sapo que é esmagado por uma rocha... Há mais formas de morrer do que outra coisa.

Mas isso adiciona um elemento de perigo, de suspense... Nunca se sabe muito bem o que é que vai acontecer depois de se virarem mais algumas páginas.

Já para não falar das ilustrações, invariavelmente fantásticas. Algumas são um bocado mórbidas. Um zombie com a cara meio derretida a cair não é das visões mais agradáveis de sempre, mas os desenhos são bons, dão mesmo uma sensação de repulsa e de medo.

Uma das coisas mais engraçadas era quando se começavam a fazer mapas. Volta e meia um tipo cansa-se de ser chacinado por abelhas gigantes, um unicórnio enfurecido, um calhau mal preso ou umas botas que dão ataques cardíacos. É nessa altura que ao jogar, se vai fazendo o mapa, indicando o que aparece em cada parágrafo.

O nível de cromice e de entrega é gigante. Quando eu decido pôr de parte algum do meu tempo para agarrar numa folha e ir fazendo o mapa dos caminhos que percorro num livro/jogo... Muito bom.

Mas sinceramente, já nem sei como é que o primeiro me chegou às mãos, nem qual foi. Só sei que sempre tive um certo fascínio por estes livros, de tal forma que ainda hoje pego neles com bastante regularidade. É óbvio que já raramente jogo a sério, com dados e tudo, mas ir avançando e ganhando sempre é bastante agradável.

E já mencionei que alguns eram de fantasia e outros de ficção científica, com todos a puxar para o terror? Ainda há pouco tempo estive a conversar com o pessoal da oficina de escrita, e não pareceram grandes fãs dos de FC, mas eu cá gostava. Os de fantasia eram melhores, provavelmente porque permitiam mais bodega, mas eu deliciava-me com todos.

Fico fascinado com o mecanismo de jogo, e bato palmas a quem inventou este sistema. Só me falta agora é ter a colecção toda!

4 comentários:

SMP disse...

Eh pá, as recordações que essas capas trazem!

Acho que o primeiro que eu e a minha irmã tivemos foi «O Feiticeiro da Montanha de Fogo», que salvo erro era mesmo o n.º 1 da colecção, mas depois veio «O Talismã da Morte» e «A Masmorra Infernal» (precisamente)... chegámos a ter dezenas deles, todos comprados na feira das livrarias de Ovar (comprar um livro novo, na altura, era coisa que só acontecia para aí a cada três anos)!

Ainda me lembro que no 223 d'«O Feiticeiro da Montanha de Fogo» (acho que era nesse) esperavam 3 esqueletos que invariavelmente me matavam. Vê lá o trauma, já devem ter passado para mais de vinte anos!

E sim, efectivamente, embora na literatura «normal» goste mais de FC (ok, space opera excluída) do que de fantasia, as aventuras fantásticas de FC nunca me agradaram por aí além.

Na altura se alguém me dissesse que aquilo era uma forma muito geek de passar as tardes nem sequer perceberia de que raio estavam a falar... estas pequenas coisas eram o meu mundo.

Rui Bastos disse...

Acho que também devíamos combinar umas sessões de jogos, a par de sessões da oficina!

Esse era mesmo o primeiro, sim :)

São fantástico, estes livros, horas e horas que já tive a brincar com isto...

Paulo Vieira disse...

Ainda à pouco tempo comprei um livrinho destes para recordar esses tempos e lá passei eu mais um par de horas, tipo puto, a jogar isto.

Deve ser a pérola menos valorizada da minha infância.

Rui Bastos disse...

Um autêntico vicio!