sábado, 8 de março de 2014

Quando parar?


Uma das piores sensações que posso ter ao ler um livro, é o de querer parar. Aquela vozinha na nossa cabeça que após cada palavra nos diz: "larga isso... tens aí melhor... isso é tão mau...". É sinal de que o livro não me está mesmo a agradar, por uma razão ou por outra.

Raramente o faço, mas sinto isso algumas vezes. Costumo obrigar-me a acabar simplesmente porque não gosto de deixar livros a meio, mas a tentação é grande, e cada vez mais. A quantidade de livros que tenho em lista de espera continua a aumentar, para quê perder tempo com um livro que não me está a dizer nada?

Mas ainda há uma coisa que me faz mais confusão, e que acho que nunca fiz em definitivo: deixar uma saga/colecção a meio. Imagino que toda a gente também já se tenha debatido com esta questão. Aquelas alturas em que estão a ler um volume de uma colecção, ou que acabam de ler metade da saga, e só conseguem pensar que não vão continuar a ler aquilo. Nesses momentos podemos desistir da saga, a demonstração mais definitiva de que se perdeu a confiança num autor.

Ou então continuamos. Seja por hábito, por algum tipo de sentimento de compromisso com o autor, a saga, o universo criado ou as personagens, ou por outra razão qualquer, podemos chegar a uma altura em que não sentimos vontade de continuar, mas continuamos. Mais que não seja temos que saber como é que aquilo acaba, não é verdade?



Foi um bocado isso que aconteceu comigo e com As Crónicas de Allaryia. Da primeira vez que li os livros, ainda só tinham sido publicados os quatro primeiros. Lembro-me perfeitamente de delirar com o primeiro (coitado de mim) e de estar a ser a minha saga favorita de sempre (o Tolkien que me desculpe, que já tinha lido a sua trilogia, mas eu não pensava bem nesta altura) até chegar ao quarto volume. Li-o e achei-o... Aborrecido, na melhor das hipóteses.

Quando fiz a temporada temática aqui no blog, há dois anos, apercebi-me de que a qualidade era um crescendo, e que o quarto volume era muito superior ao primeiro. Também já me tinha vindo a aperceber, com o passar dos anos, que A Manopla de Karasthan não era a obra-prima de que eu me lembrava. Mas ainda assim, naquela altura, tinha eu onze ou doze anos, achei-o genial, e estava tudo fantástico até ao fatídico quarto volume.

Depois saiu o quinto, Vagas de Fogo, e comprei-o o mais rápido possível. E fiz o mesmo com O Fado da Sombra. E mais ou menos o mesmo com Oblívio. E fui lendo. Nunca desisti. Por hábito? Por querer saber o que se estava a passar? Por ter sido a saga que me acompanhou ao longo de alguns anos?

Acho que todas as opções se aplicam. A verdade é que fiquei tão envolvido com a saga, que mesmo depois de achar um volume muito parado e ficar sem vontade de continuar, não hesitei em comprar e ler o volume seguinte.


Outra situação ligeiramente diferente foi a que se passou com a saga-anteriormente-conhecida-como-trilogia do Christopher Paolini, iniciada com Eragon, que devorei completamente. Era difícil não gostar de algo com dragões, mas não fiquei fascinado. Mas ainda estava cativado quando comprei e li o segundo livro, Eldest. E foi então que o interesse esmoreceu.

Já só comprei o Brisingr por querer acabar a história. Definitivamente classificado nas minhas estantes como mediano, quando soube que a trilogia se ia tornar numa tetralogia e que ainda me faltava um livro... Bem, digamos que adiei indeterminadamente o último livro. Entretanto ofereceram-mo e tenho-os a postos para re-leitura e mergulhar no último volume, esperançoso de que os anos tenham feito bem aos livros e eu os ache maravilhosos.


Mas nem tudo são rosas e histórias felizes. Charlaine Harris não tem a mesma sorte de Filipe Faria e Christopher Paolini. Comecei a ler os seus livros vampíricos bastante interessado na perspectiva de ter vampiros a sério, mas a certa altura perdi o interesse. Não é que tenha achado os livros maus, mas a autora não conseguiu manter-me cativado.

Ainda comprei cinco, mas acho que logo ao terceiro comecei a ter dúvidas, que depois do quarto tinha poucas esperanças, e que quando acabei o quinto deixei de me preocupar. Basta ver que já nem sei em quantos livros é que isto já vai.

Talvez um dia volte a eles, de preferência em inglês, até porque vi algumas temporadas da série, e gostei moderadamente, mas até isso começou a perder o interesse e a ficar activamente palerma demasiado depressa para o meu gosto.


O criminoso mais recente é Steven Erikson, com Gardens of the Moon, o primeiro volume da saga Malazan Book of the Fallen. Comecei a leitura deste épico da fantasia com dois amigos, ligeiramente assustado com o compromisso de dez livros dos quais não sabia muita coisa, mas confiante de que era algo para se ir lendo nos próximos anos, com calma, e que ia ser tão espectacular que íamos despachar metade da saga este ano.

Querias. Não gostei nada do primeiro livro, e fiquei com praticamente zero de vontade de continuar. Ainda vou ler o segundo, porque parece que as críticas dizem que a série melhora exponencialmente, mas já tenho pouca confiança nisso, e se conseguir adiar um bocado as coisas... Melhor.

A questão é: como é que sabemos se devemos ou não parar? Acho que a única hipótese viável é mesmo pensar no que já lemos e em quantos livros ainda temos pela frente, e avaliar se vale a pena o compromisso. Malazan, com "um livro terrível e ainda mais nove para ler", não está com boas probabilidades, enquanto que os livros de Paolini, com "três livros medianos e um ainda para ler" lá se conseguiu safar.

O importante é não sentir que estamos a perder a tempo. Quando isso acontece, seja com uma colecção ou com um livro, larga-se a acabou. Ou achamos que aquilo ainda pode melhorar por uma razão qualquer, ou pomos de lado. Se definitivamente, se só por algum tempo... Logo se vê.

4 comentários:

Ana/Jorge/Rafa/Júlia disse...

Filipe Faria, tudo bem, mas Paolini é mediano? :P são ambos bem medianos, mas ainda assim a escrita do 2º parece-me ser mais cuidada (também confesso que do Faria só li random excertos na Fnac, por isso não posso opinar muito);

Malazan é para sermos guerreiros e continuar xD

E, num tom mais sério, eu pessoalmente nunca consigo deixar uma saga a meio, por muito má que esteja a ser; fico sempre com aquela voz a dizer "olha que o próximo pode ser melhor" e não consigo deixá-la, quanto muito posso é ler uma saga e nunca mais voltar ao Universo (como no caso de "O Mago").

Jorge

Rui Bastos disse...

Paolini não me fascinou... A escrita não é má, e até gostei bastante do Eragon, mas depois aquilo ficou morninho. Acho que quando reler gosto mais.

De Malazan não sei se somos muito corajosos ou muito idiotas!

E sinto o mesmo que tu, tenho imensa dificuldade em abandonar uma saga, exactamente por isso. "Talvez melhore". Mas fazer isso e no fim aquilo ter sido uma grande bodega... The pain!

asesereis disse...

Ao ler as suas crónicas Rui, acho que Einstein é que esteve bem ao enunciar que tudo é relativo...

O Paolini escreveu uma história muito bonita com os seus quatro livros, sendo o quarto o melhor livro de todos.

O GRRM é um autor de culto! Os seus livros da "Song of Ice and Fire" são qualquer coisa extraordinária.

Os livros pretos de GM Tavares são algo de profundamente reflexivo e magistral acerca da condição humana, com destaque para "Aprender a rezar na era da técnica"

O gosto por Tolkien, vá lá, é comum, assim como o gosto por Banda Desenhada.

Mas divirto-me bastante com as suas crónicas Rui, até porque vou escrevendo qualquer coisinha para mim, não para os outros, e vejo aquilo que a literatura é, uma arte.

E como todas as artes, provoca todo o tipo de gostos e desgostos...

Muito bom o blog.

Francisco Fernandes

Rui Bastos disse...

Relativo, claro. Aquilo que eu escrevo por aqui são opiniões minhas!

Paolini tem o benefício da dúvida, que já lhe li os livros há algum tempo, e suspeito que vá achar o primeiro pior, e os seguintes melhores, numa releitura.

O Martin pode ser autor de culto à vontade, do que li até agora (correspondente a 2 livros em inglês), não desminto que escreve bem e que os livros são muito bons, mas acho o hype exagerado de qualquer forma.

Tavares... Bem, Tavares até agora só me conseguiu aborrecer de morte. Posso dar a mão à palmatória e dizer que eu é que não sou o leitor-alvo dos seus livros, mas não gostei mesmo. No entanto reconheço-lhe o talento, o potencial (que acho que ainda não explodiu, o homem é uma caixinha de surpresas) e a boa escrita.

Tolkien e BD never fails :)

Espero que continue a ler as minhas crónicas e, quem sabe, comece a publicar algumas dessas coisas que escreve.

De resto, obrigado e boas leituras!