quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O Dia do Perdão


Autor: Ursula K. Le Guin
Tradutor: Carlos Grifo Babo


Opinião: Quando li Le Guin pela primeira (e única até agora) vez, fiquei maravilhado com a beleza da sua prosa. Li o livro de rajada, completamente hipnotizado por um dos melhores exemplos de escrita que já vi na vida. E vinda de uma autora de FC e Fantasia, para calar os críticos desses géneros!

Não foi só isso, no entanto: a história contada era interessante e a autora conseguiu explorar as personagens bastante bem, tendo em conta o tamanho reduzido do livro.

Isto para dizer que não esperava menos deste livro. Sabia que o registo provavelmente seria diferente, Lavínia era mais Fantasia, este é mais FC, mas a escrita! A mestria a contar uma história! Le Guin não me ia desiludir, claro que não!

Mas desiludiu. A escrita não está ao mesmo nível e na tentativa de contar uma história mais abrangente através de pequenas histórias interligadas, com o intuito principal de passar uma mensagem - por mais poderosa que essa mensagem seja! - tornou o livro maçudo e mais complicado de ler.

A verdade é que me aborreci em certas partes. As histórias que Le Guin reúne aqui contam percursos individuais de perdão que em essência são bastante similares: a conclusão acaba por ser o auto-perdão, acima de tudo, de certa forma. O facto destas histórias serem mais ou menos paralelas serve para pintar, nas entrelinhas, um mundo que tem muito para aprender e a cuja evolução assistimos.

O grande defeito é que caímos de pára-quedas numa civilização completamente diferente da nossa, com nomes estranhos ao virar de cada página e poucas explicações. Nem nos detalhes, nem de forma subtil, nada. A autora opta por explicar directamente ou não explicar de todo. Esta abordagem poderia ser interessante se o leitor tivesse tempo (ou seja, páginas suficientes) para conseguir apreender tudo, mas depois de nos habituarmos a uma linha narrativa e começarmos a ficar familiarizados com as particularidades do cantinho que estamos a observar, BAM, acaba a história e avança-se para outra.

É uma pena, pois Le Guin tem tudo para ser uma das minhas autoras favoritas, mas este livro deixa-me reticente. Depois de Lavínia ainda tenho esperança para dar e vender, mas espero bem que a vertente FC da autora seja melhor do que este livro.

Não posso deixar passar, ainda assim, o esforço em falar de temas como liberdade e amor de uma forma diferente da habitual, transmitindo uma mensagem feminista pelo caminho. Nota-se que é uma autora preocupada e que sofreu na pele o preconceito de ser mulher num mundo de homens!

2 comentários:

Jules Pijey disse...

Eh que desagradável. Não estava a contar. Tenho de ler o que tenho para aqui dela, pode ser que seja mais Lavínia style!

Rui Bastos disse...

Pois, é verdade... Fico à espera dessa opinião!