quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Pyongyang


Autor: Guy Delisle
Tradutor: Claudio R. Martini


Opinião: Quanto mais sei sobre o assunto, mais me parece que vivemos numa ilusão. Primeiro a China, agora a Coreia do Norte, dois países muito falados, mas sobre os quais sabemos pouco. O que apenas demonstra que esta realidade europeia e norte-americana é apenas uma fatia do Mundo em que vivemos, e não tão grande quanto isso.

Conhecemos o lado Ocidental razoavelmente bem, se ignorarmos o facto de não sabermos bem como é a vida na América do Sul e o de ninguém querer saber como ela é em África. Mas a verdade é que se achamos que existe um grande desequilíbrio social na Europa e nos Estados Unidos, estamos enganados.

Ele existe, mas não é grande. Não quando comparado com o que existe no resto do Mundo. Basta pensar no Brasil, uma realidade que nos é mais próxima, com as suas zonas de luxo e as suas favelas. Ou em praticamente qualquer país africano, onde há pessoas com riquezas de um nível absurdo, e pessoas a viver em condições mais do que miseráveis.

E a Ásia não é muito diferente. Ou melhor, a Ásia é bastante diferente. São um mundo mais fechado, mais privado, muitos dos seus habitantes a viverem trancados numa ilusão da qual dificilmente vão sair.

Não quero correr o risco de generalizar demasiado, depois de dois livros sobre o assunto e alguma pesquisa na internet, mas o que vejo é um continente que praticamente se esforça para se isolar do resto do mundo.

Pelo menos é essa a verdade em alguns países asiáticos, em especial nos que ainda sofrem com a ditadura e a opressão desregrada. Como na Coreia do Norte. E nós aqui, no quentinho dos nossos problemas com a troika e com governos cuja missão é passar semanas atrás de semanas a debater "mais 1%! não, menos 2%! não, mais 3 milhões dos pensionistas! não, mais 5!", fazendo passar as novas medidas de mansinho, sem que ninguém dê por elas, não fazemos a mínima ideia do que se passa nesse país governado pela única ditadura comunista existente.

Achamos que sabemos, e rimo-nos daquilo que passa cá para fora, mas não imaginamos os níveis a que tudo chega lá dentro. A missão que Guy Delisle incumbiu a si próprio foi a de contrariar essa ignorância. Tal como em Shenzhen, foi em trabalho para a Coreia do Norte, mais especificamente para a cidade de Pyongyang, e documentou tudo o que lá viu e viveu através da banda desenhada.

É difícil resistir ao humor leve, mas estranhamente acutilante, com que Delisle conta as suas peripécias, desde ser sempre seguido por um tradutor que pouco traduz, até visitar um museu dedicado unicamente a mostrar como o ex-governante é um ser quase todo-o-poderoso e benevolente. Aquilo que se percebe é que além de uma ditadura comunista, a Coreia do Norte vive num estado semi-religioso, em que as divindades são os filhos de uma linhagem de governantes.

Muito bom e muito interessante, este livro consegue ser, acima de tudo, chocante. É uma leitura fácil, e divertida, mas depois de o fecharem e de se lembrarem do que lerem... Pesa um bocado.

6 comentários:

Anónimo disse...

É muito triste que países com todas as condições para serem países economicamente desenvolvidos e democraticamente livres, como a China e a Coreia do Norte, sejam governados por verdadeiros tiranos que apenas têm olhos para o seu umbigo.

Todavia, o pior é o ocidente tratar de permitir o comércio com esses países, especialmente com a China...
Não percebo como é que a União Europeia deseja competir com o mercado chinês quando os empresários destes não têm trabalhadores mas sim escravos...

É para isto que servem os livros, mesmo os de banda desenhada, para nos dar a conhecer o lado mais obscuro da civilização humana...

Abraço...

Francisco Fernandes

Rui Bastos disse...

O problema é exactamente esse... Só têm essas condições porque têm décadas (e às vezes séculos!) de opressão do povo e genuíno desprezo pelos estrangeiros.

O caso da Coreia do Norte, no entanto, é muito peculiar, pela divinização ridícula que fazem aos seus líderes...

A União Europeia está-se pouco borrifando para os meios, já que os resultados lhes dão tanto jeito.

Jules Pijey disse...

Pesa um bocadinho, pesa. Mas é o que dizes, este Delisle consegue dar-nos uma noção de como são as coisas para aquelas bandas que nunca pensei que fossem tão más. Não tinha ilusões de que a Coreia fosse uma ilha paradisiaca mas aquilo é ridiculamente mau. Aquela divinização é, para nós, qualquer coisa de absurdo mas para eles é uma realidade. Sagrada, ainda por cima.

Anónimo disse...

Não sendo de todo um iconoclasta porque também tenho algumas pessoas que admiro na vida, é bom chamar sempre a atenção para o facto de que a idolatria desalmada que anda no ar através de uma desmesurada manipulação sucessiva e ininterrupta da imagem de jogadores de bola, políticos, artistas e afins contribui sobremaneira para o mesmo final que hoje em dia se passa na Coreia do Norte.

E tudo começa na fraca educação do mundo contra estas manipulações...
É preciso saber quando estamos a ser alvos destas manipulações...
Enquanto não nos dermos conta de tal, tenderemos a ser uns conscritos destes regimes tal e qual os norte-coreanos...

Rui Bastos disse...

Jules, é isso mesmo. E a melhor parte é que o tipo ainda o faz de forma tão... leve.

Francisco, tens razão. A diferença é que lá são mais óbvios...

Rui Bastos disse...

Ou explícitos, melhor dizendo.