sábado, 14 de fevereiro de 2015

O problema da Literatura em Portugal

Para além de "não há dinheiro para comprar livros", como é mais do que óbvio. Esse problema já eu mostrei várias vezes que não é bem um problema: entre alfarrabistas, promoções, feiras do livro, e afins, é possível comprar autênticas pechinchas. E as BLX raramente falham, qualquer uma tem sempre alguma que vale a pena. Grátis.

Não, o problema é outro. E não é nada que seja fácil de resolver. Conhecem a expressão "levar-se demasiado a sério"? Acho que é mais ou menos isso que acontece. Seja na literatura dita mainstream (e essa às vezes não se leva tão a sério como devia) ou na mais especializada, seja em formato romance, conto, novela ou BD, parece que já quase ninguém se diverte a escrever.

Sim, meus caros, escrever é algo que se faz porque se gosta. É algo que nos deixa satisfeitos e concretizados, e que gostamos realmente de fazer. Mas o que eu vejo a acontecer não é isso. O José Rodrigues dos Santos, também conhecido como "A Máquina De Best Sellers Que De Certeza Não Os Escreve Sozinho", fez da escrita um trabalho como outro qualquer: cospe um livro a períodos regulares, com temas actuais, sempre com basicamente a mesma fórmula, e vende que nem pacotes de lenços no Inverno.

No nicho do Fantástico, que conheço melhor, aquilo que vejo é uma queda maior para a Ficção Científica - a literatura das ideias, não se esqueçam - e uma quase incapacidade em sequer discutir as coisas sem se entrar num autêntico combate de "a minha ideia de FC é melhor que a tua, na na na na!". Como é que um autor de FC pode sequer entrar no mercado? A multidão de críticos, às vezes mais preocupados com o facto das cortinas não chegarem ao chão e então não fazer sentido estarem tão puídas, do que com a história e a escrita, parece uma corte de abutres à espera da próxima posta de carne para canhão. É intimidante.

Nem falo de pessoas como o Pedro Chagas Freitas, cuja denominação de escritor até me faz espécie. Mas posso dar o exemplo do David Soares, um escritor a sério, cujo trabalho admiro (algumas coisas mais do que outras, no entanto), mas que leva a sua genuína intelectualidade demasiado a sério. Bem, tem dias. Acho mais que ele é como um professor do IST: genial na sua área, mas com dificuldades em pôr de forma simples aquilo que lhe vai na cabeça, simplesmente porque o que lhe vai na cabeça não é simples.

Um bocado como o que acontece com o Gonçalo M. Tavares, alguém cujo talento imenso reconheço, mas cujos livros me apetece atar a blocos de cimento e atirar ao rio. A sua mensagem tem que passar, e é uma coisa muito séria, e se ele não a repetir trinta mil vezes de trinta mil formas diferentes, não vai ficar satisfeito.

Estou-me pouco borrifando para o primeiro autor que mencionei e para o indivíduo de que falei a seguir. Mas os outros, e muitos como eles, tanto mais veteranos como mais amadores, só tinham a ganhar com uma abordagem mais relaxada. Especialmente o pessoal que anda agora aí novo, não há pressa nem necessidade de preencher determinado critério super exigente de que tudo tem que ser pensado até à exaustão. Tenham calma. Escrevem porque sim, porque gostam, porque vos sabe bem.

Como faz o pessoal da Imaginauta. É claro que não sei se se estão a divertir com este projecto, mas é daquilo que falo. Não se levam demasiado a sério. Têm um projecto, têm um plano, estão a explorar e a divertir-se. "Vamos fazer um livro de contos", "agora vamos arranjar um CD", "agora vamos fazer uma campanha de livros natalícia", "agora vamos fazer um concurso para arranjar um RPG". Ah!

Ou como fazem o Manuel Alves e o Joel Gomes, que promovem o seu trabalho de forma engraçada e sem pretensiosismos. Muito tranquilos. Como eu gosto de ver.

E tudo isto se resume a algo muito simples. Por muito lógico que eu seja, e por muito que preze o meu raciocínio, há uma coisa de que tenho perfeita noção. Para mim, e acho que isto é que faz sentido, a Literatura antes de ser intelectual, é emocional. Desperta sensações. Faz-nos sentir coisas. Só depois dessa primeira fase é que realmente analisamos as coisas com algum método, e começamos a ver as falhas ou os parafusos que estão a manter tudo junto.

Quando o pessoal se leva demasiado a sério, salta a experiência emocional. Agarra num texto e lê-o com o espírito de "vamos lá ver onde é que ele se enganou", ou "deixa lá contar o número de clichés". Ou escreve alguma coisa e pensa nas suas personagens como meros veículos de mensagens e engrenagens na máquina narrativa que é a sua obra.

O panorama começa a mudar, e sei que esta minha opinião pode ser, no mínimo polémica, mas só quando os leitores e escritores portugueses aprenderem que podem sair do pedestal e ser comuns mortais, é que a Literatura por cá avança alguma coisa.

15 comentários:

Jules Pijey disse...

Fiquei com muita curiosidade numa coisa: reconheces imenso talento ao M. Tavares porquê?

Rui Bastos disse...

Porque ele escreve bem... Gosto da escrita dele. Não gosto é das coisas que ele escreve. Ele é como aqueles músicos que tem boa voz, ou que até tocam muito bem, mas depois se viram para as popalhadas repetitivas da treta... Ele escreve bem, mas escreve pseudo-intelectualidades modernistas da treta, sem pés nem cabeça.

Várias vezes, ao ler coisas dele, fico a pensar "se ele escrevesse uma história como deve ser, ou um livro que fizesse o mínimo de sentido, em vez desta propaganda ideológica pessoal super agressiva e aleatória, eu até ia gostar bastante".

SMP disse...

Concordo com a maioria do que escreves. Neste país leva-se tudo demasiado a sério (como era a frase do O'Neill? Um país engravatado todo o ano, a assoar-se na gravata por engano...).

Não só a literatura. Um exemplo de outra área, que até nem é meu: quando se começou a falar no Shark Tank Portugal, li ou ouvi alguém (infelizmente não recordo quem) comentar que ninguém imaginava determinados figuraços do nosso mundo empresarial a fazer o papel do Kevin O'Leary, porque aqui se dava demasiada importância à credibilidadezinha. Ao sr. doutor. E dá. E, todavia, estou convencida que umas maratonas intensivas daquele programa deviam ser obrigatórias nos ditos workshops de empreendedorismo que pululam como cogumelos por aí.

Na academia passa-se mais ou menos a mesma coisa... abre um manual de Filosofia do Direito de Coimbra e depois diz-me como é que se pode esperar que um aluno normal se interesse por um texto que só consegue decifrar ao fim de quinze leituras. E depois faz a experiência de abrir um manual de Jurisprudence dos Estados Unidos - desafio-te a encontrar alguém que consiga ficar completamente alheio aos problemas que lá são postos, da maneira como são postos.

A desgraça é que, num panorama assim, qualquer autor que queira um dia - mesmo que um dia longínquo - fazer vida da escrita fica completamente paralisado, com medo de que os seus primeiros passos sejam dados em falso e nunca mais possa voltar à categoria dos «respeitáveis». Por outro lado, paradoxalmente, quem é suficientemente maluco (ou ignorante, que também os há) para se borrifar para isso tudo atira-se a escrever romances que logo se tornam "badalados" (especialmente se tem as costas quentes) sem ter lido um clássico sequer.

Julgo que já discutimos isto, mas das vezes em que tenho ouvido membros da nova geração de autores que anda na berra (os filhos da Leya, vamos pôr a coisa assim), a conversa acaba sempre por ir parar ao mesmo: é essencial distinguir a boa da má literatura, mas claro que a minha é, indiscutivelmente, da boa. E quanto mais pseudo melhor; de preferência poemas carregados de palavrões que é para dar um ar ousado, avant-garde (a esse propósito, recomendo como leitura diária o blogue Malomil, um dos melhores que já tive o prazer de ler, e que faz um belíssimo trabalho no desmascarar dos reis que vão nus).

Não sei se costumavas ver o Paradoxo da Tangência, no Canal Q, em que o Eduardo Madeira, aliás Eduardo Jaime, fazia um brilhante papel a retratar a situação do nosso panorama artístico e literário em particular. Está ali tudo...

Anónimo disse...

GM Tavares é alguém com excesso de pensamentos, é alguém que tem perspectivas a mais sobre a mesma ideia na cabeça. Eu gosto disso. Reconheço que não é uma leitura fácil, mas o desgraçado é um grande escritor.
Quanto a David Soares, li a Sepultura dos Pais e confesso que tive de o reler para passar ao lado das inúmeras expressões gratuitas "Já me esporrei..." para descortinar o resto das mensagens mais subtis existentes (Não sou um expert em BD também... infelizmente).
Quanto ao Evangelho do Enforcado, sou sincero, teve uma edição manhosa especialmente na revisão, contém erros de sintaxe que acontecem por vezes aos melhores, peca pelo excesso de frases em latim e a qualidade do autor apenas se expressa na totalidade quando ele se alivia do seu pedestral intelectual e nos arranca umas gargalhadas inesperadas do seu escrever brejeiro ("Fodido seja eu no cú!"). Claro que continuo adepto de ler um livro que me ensine bastantes palavras novas, claro que continuo fã do uso de latim, mas o excesso nesta obra é por demais (Devia ficar-se pelas expressões das personagens mais cultas e bastava...)
Tem que haver um certo equilíbrio que acho que falta a estes autores.
Por exemplo, não conhecia o Filipe Faria, e nada conheço do que vem depois das Crónicas de Allarya, mas a verdade é que para além de notar a sua evolução, adorei a forma como ele criou palavras (Epilúnio...) e a forma como ele foi buscar aos dicionários velhinhos expressões e palavras bem antigas e as imprimiu no modo de falar de certos povos na sua obra. Aqui existe equilíbrio entre história e intelectualidade.

Quanto ao problema dos críticos, faz-me espécie quem lê com o intuito de anotar as pequenas falhas que existem sempre em qualquer autor e que deitam por terra a pouca tentativa de cultura que ainda se vai tendo.
A Clara Ferreira de Sousa, "enorme crítica literária", só gosta de livros estrangeiros? Já viram bem a estante dela naquela revista da Fnac? Os seus autores favoritos? Como pode essa pessoa ser posta a criticar obras portuguesas se ao que parece não gosta de nenhuma? Ela que fique com o Nabokov e com o Green e as suas traduções que eu prefiro ler Saramago e GM Tavares e Mia Couto e Machado de Assis e lusofonia, com palavras que são nossas, com histórias contadas em português...

Quanto a levarem-se demasiado a sério certos escritores, concordo plenamente... Se desfrutassem do acto de escrever, se experimentassem mais, talvez o mercado fosse diferente...

Abraço
Francisco Fernandes



Rui Bastos disse...

Sandra, é exactamente isso. Há essa obsessão com hierarquia, com o "parecer bem"... E todas as áreas acabam por sofrer com isso. Na Literatura o problema é gritante, tal e qual como dizes. Um autor estreanto tem medo, puro e simples. Basta conhecer um bocadinho o público que o espera e é normal que assim se sinta! Especialmente se falarmos do Fantástico, com a fandom que conhecemos!

Não conhecia nenhuma das tuas sugestões, vou espreitar ;)


Francisco, concordo com o que dizes sobre esses três autores, embora mantenha a minha posição de que ainda não li nada do Tavares que valha realmente alguma coisa.

Sobre o Filipe Faria, não tinha pensado nisso, mas é verdade. Ele usa e abusa de palavras estranhas, arcaicas, complicadas e algumas inventadas, mas consegue fazê-lo bem.

Esses críticos, enfim. Eu desde que estou na Oficina de Escrita, e também graças aqui ao blog, leio os livros com outros olhos, é verdade, mas não fico focado nos defeitos ou no esqueleto narrativo por trás da história. Deixo-me embrenhar - ou não, se o livro não me agradar - mas aprecio o livro. Ou tento. Esses críticos não, nem sequer sabem bem sobre o que é o livro, apenas se especializam em apontar falhas e falhas e falhas, e em exagerar essas mesmas falhas.

Pode ser que esta tendência comece a mudar, tanto na leitura como na escrita. Eu cá estou a tentar fazer a minha parte, em ambas, eheh ;)

Leto of the Crows - Carina Portugal disse...

Infelizmente tenho de concordar, e é algo especialmente notório na FC e na imagem que os críticos passam do género. Dão-lhe um ar tão frio e mecanicista, tanto ênfase nos aspectos técnicos... que, provavelmente, até afastam possíveis leitores.

Anónimo disse...

SMP, Filosofia do Direito de Eduardo Vera Cruz Pinto é o único livro de filosofia de Direito que vale a pena ler e reler!

Fala de problemas bem actuais.
O resto são só ismos...

Francisco Fernandes

artur coelho disse...

Há FC em portugal, Rui? Detesto concordar nisto com o Barreiros, mas FC literária por cá é letra morta, tirando o Imaginauta e alguns aspectos da Divergentes. o gosto está mais na fantasia urbana ou fantasia mágica/medievalista.... mas devo concordar com os teus disparos. o gongorismo intransigente do david soares não é facil, e há tanta coisa por aí bem considerada que não passa de escrita a metro ou má literatura. fico embasbacado com o fenómeno/praga chagas freitas... vejo a apaixonar as minhas alunas adolescentes com aquelas frases bacocas, o que até não me surpreende, mas quando vejo muita gente adulta a confessar adorar lê-lo fico seriamente desconfiado da sua capacidade cerebral. num país sem hábitos de leitura, onde até os professores que tanto insistem na importância da leitura... lêem pouco ou nada, este tipo de coisas dificilmente muda. e como dizes, se o preço dos livros é elevado, não é desculpa. há tanta maneira de ler livros baratos ou à borla. mas num país sem gostos imperam as modas.

Rui Bastos disse...

Artur, aí é que está. Praticamente não há FC, em parte, por causa da fandom. Lets face, são os mais horríveis, um tipo tenta escrever FC e cai-lhe tudo em cima por um motivo ou por outro...

Se bem que tens razão, não há assim tanta coisa. Mas há steampunk, a Imaginauta, a Divergência, o Manuel Alves... Só para dar alguns exemplos activos.

O problema dos gostos e das modas é outro, que só piora a situação...

Ana C. Nunes disse...

Concordo com muito do que diz, mas o problema reside no facto de que o José Rodrigues dos Santos faz pipas de massa, enquanto que os/as autores/as que refere como escrevendo por diversão, possivelmente, estão longe de viver da escrita.
Não que eu seja a favor de transformar a escrita numa coisa que se faz através de fórmulas (tipo excel), mas infelizmente o público não quer saber se nos estamos a divertir a escrever. Na verdade, nem sei bem o que o público quer. Coisas diferentes não deve ser, porque os tops estão sempre cheios das mesmas coisas.
Dito isto, eu sou das que só escreve porque adora fazê-lo e se diverte à brava com isso, mas talvez esso seja uma das razões porque a escrita não entra sequer na minha declaração de IRS. Tal é a filão de ouro que a minha diversão escava.
E só porque vale a pena referí-lo: também eu gosto muito da abordagem que o Imaginauta, o Manuel Alves e o Joel G. Gomes, entre outros, têm à sua escrita e à divulgação da mesma.

acrisalves disse...

Eu diria algo mais. Os portugueses gostam de escritores que se levam muito a sério e que são muito sérios. Aliás há muitos que lêem por uma questão de status e de se mostrarem cultos, não necessariamente porque se querem divertir com um livro. Mas quem fala em livros fala em cinema ou televisão. Estamos num país de gente séria e multo adulta que cá essas coisas de ficção científica e horror é para gente tola e imberbe. Gente que, na sua maioria não percebe que a imaginação é uma das raizes da inteligência.

Manuel Alves disse...

No que me toca, continuarei a escrever por gosto (e a publicar para partilhar com o mundo a minha genialidade... ahah). Se os meus livros chegarem a leitores que saibam reconhecer a marca de génio (mais um ahah), e tenham a gentileza de contribuir para a divulgação do meu trabalho (que merece adoração e, vá, rios de dinheiro... ahah), vamos lá a isso.

Rui Bastos disse...

Ana, eu diria o que a acrisalves disse... Sem tirar nem pôr. É um bocado o que disse a Sandra lá em cima, e aquilo que eu disse na crónica.

Levam-se demasiado a sério.

Manuel, o espírito é exactamente isso. Apenas gostava de ver mais gente assim! E com isto aproveito para prometer ler coisas tuas nas proximidades, que ainda só peguei num conto!

Luiz Santos-Roza disse...

Interessante artigo; lamento meter-me nele depois de publicado há tanto tempo, mas o asssunto fascina-me.

- "Como é que um autor de FC pode sequer entrar no mercado? A multidão de críticos, às vezes mais preocupados com o facto das cortinas não chegarem ao chão e então não fazer sentido estarem tão puídas, do que com a história e a escrita, parece uma corte de abutres à espera da próxima posta de carne para canhão. É intimidante."

Oh, eu adorava que o meu romance entrasse no mercado para os críticos caírem sobre ele como leãos numa jugular. Infelizmente, o problema começa muito antes, com os editores: com a indiferença, o silêncio deles. Há meses que ando a tentar entregar o meu romance a eles, e raramente obtenho respostas. Não digo respostas sobre a qualidade do livro, depois de lido, mas sobre se querem RECEBER o livro para análise.

- "Mas os outros, e muitos como eles, tanto mais veteranos como mais amadores, só tinham a ganhar com uma abordagem mais relaxada. Especialmente o pessoal que anda agora aí novo, não há pressa nem necessidade de preencher determinado critério super exigente de que tudo tem que ser pensado até à exaustão. Tenham calma. Escrevem porque sim, porque gostam, porque vos sabe bem."

Ah, mas aqui entramos numa área ambígua. E se para mim escrever por gosto, como me sabe bem, significar exactamente pensar tudo até à exaustão, buscar a perfeição em tudo e ser extremamente exigente comigo próprio? Eu sou tudo isso e ponho muito esforço no que escrevo exactamente porque sinto grande deleite em realizar uma ideia que não sabia se conseguia realizar. Presumo que David Soares pensará o mesmo.

Se quiser ler um conto cuja escritura me deu bastante divertimento, convido-o a lê-lo: http://obloguedeluizsantosroza.blogspot.pt/2015/10/hora-de-ficcao-i.html

Talvez não gargalhe em todas as frases - talvez nem gargalhe sequer - mas garanto-lhe que escrevi o conto do princípio ao fim sempre com um sorriso nos lábios.

Rui Bastos disse...

Luiz,

- Há um problema a nível de editoras que do meu ponto de vista tem duas partes: poucas pessoas a fazer o trabalho de editor; muitos editores a fazerem um mau trabalho.

Não duvido que seja difícil obter respostas de uma editora: a quantidade de pessoas que escreve e envia manuscritos deve ser avassaladora, e como por cá não temos máquinas editoriais como noutros países, torna-se impossível dar vazão.

Depois quando se consegue dar, temos o problema de que se procuram apenas coisas muito específicas, de autores novos, coisas que vendam, o que implica logo excluir uma fatia grande dos autores, que têm qualidade mais do que suficiente para serem editados, mas são rotulados como uma má aposta.

No entanto nota-se bem que a nível de crítica, há um coro de vozes que confunde objectividade com ser desagradável, e que nem chega a ler o livro como livro, mas apenas como pedaço de texto a analisar. Eu também não me importo de pôr coisas cá para fora para serem submetidas a essa malta, mas a verdade é que intimida.

- Não digo que não se deva escrever como o David Soares. Claro que se é o estilo que mais agrada, é o que se deve seguir. Mas a tendência hoje em dia é ou para descrições super complexas que deixam tudo claro até ao milímetro, ou para uma escrita super complexa, com muita forma e pouco conteúdo. Cada um faz como quer, mas não é preciso fazer de uma determinada forma porque só assim é que se vende, ou porque assim é que os outros fazem.

Eu, por exemplo, gosto de escrever coisas estranhas. Com pontos de vista peculiares, histórias bizarras, técnicas estranhas... A nível de uma editora grande, e ainda por cima eu escrevendo no género do Fantástico, isso afasta-me logo das vendas, pelo menos à primeira vista. Mas vivo bem com isso. É a diferença entre escrever o que quero, e escrever o que é preciso para conseguir o que quero!

Vou sem dúvida ler o conto, e comentar!