segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O Aleph


Autor: Jorge Luís Borges
Tradutor: Flávio José Cardoso


Opinião: Ah, Borges. Borges, Borges, Borges. Fazem-me falta mais génios como este senhor. Este é exactamente o tipo de literatura que mais gosto de ter entre mãos, complexa, não por capricho de escrita ou de enredo, mas pelos conceitos. Uma mistura de Matemática e Literatura que Jorge Luís Borges usa para construir vidas impossíveis, mas com uma escrita tão boa e tão consistente que parecem mais reais que as nossas.

Depois de ler O Livro de Areia, há dois anos, podem ter a certeza que fiquei fã incondicional deste escritor, posição apenas consolidado quando alguns meses depois peguei em Ficções. Aqui está um autor de contos, maioritariamente no género do Fantástico (e quanto mais bizarro melhor), que foi um autêntico génio. Sinto que me estou a repetir, mas depois de ler um livro seu é fácil ficar sem palavras.

É preciso dizer, no entanto, que não achei o livro genial - tem falhas problemáticas - mas é impossível não ficar fascinado com a pessoa por trás de todos estes contos. Sejam maiores ou mais pequenos, estão sempre repletos de pequenos pormenores, muito subtis no meio de todo o mundo criado por Borges, que me conseguem sempre deixar maravilhado.

Neste caso há a aparição súbita de Homero, que me conseguiu deixar boquiaberto, e o último conto, que dá nome ao livro O Aleph. Foram estes os dois momentos mais marcantes de todo o livro. Especialmente O Aleph, um conto sobre um objecto/fenómeno com esse nome, que é descrito como algo "que está para o espaço como a eternidade está para o tempo".

Só o facto de Borges ter sequer pensado nisto... Bem, incrível. As descrições do Aleph são fenomenais, verdadeiramente magia literária como poucos autores são capazes. Jorge Luís Borges consegue, tal como Italo Calvino (outro dos génios que tenho no panteão literário mais elevado), tecer um enredo à volta de um único conceito fantástico, muitas vezes de natureza emprestada da Matemática, e criar uma história interessante em que não deixa dúvidas sobre o que se está a passar, mas deixa tudo suficientemente em aberto para que, acredito eu, cada pessoa que leia estes contos faça uma leitura completamente diferente.

Acho que não tenho de dizer mais nada. Já perceberam o meu fascínio. Mas como disse, o livro tem falhas, e neste caso acho que talvez bastasse ordenar os contos de outra forma, porque alguns são extensos, e outros não são extensos, mas são densos, e não estão bem alternados com os contos mais leves, dificultando imenso a leitura. Não que Borges seja para ler duma assentada (sacrilégio!), mas senti alguns problemas em, por vezes, ler mais do que um conto seguido. E isto é algo que teria sido resolvido com uma melhor ordenação!

No fim, nada disto interessa e Borges continua a ser um dos meus ídolos literários indiscutíveis. Sabem aqueles autores que defendem com unhas e dentes porque os adoram, mas também porque sabem, objectivamente falando, que são bons como 99% dos autores já não são? Já compreendem como eu me sinto. Apenas posso desejar que encontrem o livro mais próximo (excepto poesia, o homem devia-se ter dedicado só à prosa) de Borges e o leiam. Se sentirem apenas um bocadinho tão maravilhados como eu já é suficiente para perceberem o calibre deste escritor. Deste génio.